terça-feira, 3 de maio de 2016

VIVER DÓI

VIVER DÓI
Por Battista Soarez
“Morrer não dói. O que dói é a vida, porque viver nos isola do resto da vida e nos deixa vulneráveis”, disse um sábio indiano a um certo homem judeu que acabara de perder um filho que tanto amava,  por conta de uma doença grave.
O indiano tentava convencer o judeu de que a morte de uma pessoa não é uma tragédia. Mas uma oportunidade única de ser promovido a uma vida superior e melhor.Segundo ele, a alma de uma pessoa que morre volta para a grande corrente da Vida superior, como uma gota d’água volta ao oceano, que é a sua origem.
Particularmente, fico perplexo ante às duas culturas de crenças diferentes. O indiano aprendeu a suportar a dor encarando-a como uma normalidade porque o seu maior foco é a Vida superior já que, para ele, morrer é uma oportunidade única na vida. “Alguns só têm a oportunidade de morrer depois de uma vida inteira de sofrimento. Outros têm a sorte de tê-la numa fase mais jovem da existência”, disse ele. O judeu, por sua vez, tem uma cultura mais existencialista e ama um filho de tal modo que perdê-lo lhe custa muita dor e intensa lamentação. Qual das duas crenças tem mais razão? A verdade é que se somos espiritualistas extremos, verticalizamos a fé e pouco da existência nos importa. Se somos existencialistas, focamos nossa fé nos valores da vida e sofremos dores quando passamos por perdas e decepções.
Algumas horas depois de ter saído do cartório onde me casei com a moça a quem amava na minha mocidade  uma jovem universitária do curso de Serviço Social, à época, por quem me apaixonei acreditando piamente ser a mulher com quem viveria o resto da minha vida — ouvi dela a seguinte frase: “Pois é. Me casei. Se eu não gostar da ideia, eu me separo”. Perguntei-lhe por que então se casou. Ela respondeu: “Porque para fazer sexo sem pecado, tem de casar”. Juro que quase voltei ao cartório para anular o casamento. Até hoje me arrependo de não tê-lo feito. Olhei para ela e disse-lhe: “Se você tivesse dito isso ontem, não teríamos nos casado”. Depois de sete anos, me vi envolvido numa série de dores emocionais, conflitos e situações desagradáveis ocasionadas pelo pedido de separação por parte dela. Então nos separamos e as consequências que vieram a partir dali impediram inúmeras conquistas e avanços na minha vida, interrompendo sonhos e realizações inclusive no ministério cristão e na minha carreira literária.
Isso ocorreu porque uma metade dela entrou no casamento e a outra metade ficou do lado de fora dele. E quando isso acontece, quando se entra numa relação conjugal com apenas uma metade, deixando a outra do lado de fora, você já tem aí quase cem por cento de garantia de que o matrimônio terminará em separação e divórcio. Dou uma olhada panorâmica à minha volta, e vejo centenas de jovens caindo na armadilha do mesmo erro: casam-se não porque querem uma vida de responsabilidade, harmonia e renúncia em favor do matrimônio. Mas porque querem fazer sexo e, depois, não ter de ficar com a consciência cheia de culpa. Casam-se apenas por causa da moral, da ética social e religiosas que a sociedade e a igreja lhes impõem. Depois pedem divórcio e terão que conviver com inúmeras dores causadas pela desconstrução do amor que um dia juraram perante o juiz e as testemunhas que seria por toda a vida, “até que a morte os” separassem. Quando se trata de cristãos, tem uma dor a mais: a dor da consciência religiosa por terem quebrado a doutrina que a maioria das igrejas prega, de que o divórcio é um pecado sem perdão. Ou, uma vez divorciados, terão de conviver com a dor de ficar sozinhos para o resto da vida. Porque, quem casar pela segunda vez, vai ter de conviver com a dor de estar em pecado de adultério para sempre. Como disse, certa vez, um homem decepcionado com tantas tentativas erradas: “Se eu nunca tivesse amado, não estaria chorando agora”. Para ele, o amor só lhe rendeu dores e sofrimento.
Olho para o que o Senhor Jesus disse em Lucas 14.26 e leio: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Mesmo assim, apesar disto que Jesus afirmou, vejo os cristãos construindo um arranjo de idolatria em torno do casamento e da família. Quando eu trabalhava na Editora CPAD, no Rio de Janeiro, um funcionário do setor de contabilidade, que também era crente, me disse: “Deus acima de tudo, família em primeiro lugar e a obra de Deus em segundo plano”. Olhei-o com incredulidade e o corrigi: “Penso um pouco diferente, meu irmão. Permita-me lhe dizer... Deus acima de tudo. A busca pelo reino de Deus e pela sua justiça em primeiro lugar. E uma vez estando o nosso compromisso com o reino de Deus no seu devido plumo, aí sim todas as outras coisas estarão bem (Mateus 6.33): família, finanças e tudo mais. Isto é o que a Bíblia nos ensina. Não acha?”.
Quase dez anos depois recebi a fatídica informação de que aquele irmão sofreu uma turbulência no seu casamento e teve de separar. Se eu tivesse contato com ele outra vez teria lhe dado a razão do seu divórcio, dizendo-lhe: “Irmão, quando pomos a fé na família para depois servir a Deus, ela estará fadada ao fracasso. Quando, porém, firmamos a fé em Deus para suster a família, esta estará segura e apta a continuar. Casamento em primeiro lugar e o reino de Deus em segundo plano representa um perigo iminente de cairmos no abismo da separação e do divórcio. Quando praticamos o princípio bíblico e colocamos Deus em primeiro plano, acima do casamento, este estará solidificado”. Não é Deus que depende do casamento e da família, mas o casamente e a família é que dependem de Deus.
Mas eu tive maturidade suficiente para entender que aquele pensamento religioso não era do meu colega de trabalho e irmão na fé cristã. Isto é o que eu ouço de quase todos os líderes cristãos que, como minha ex-mulher fez com o nosso casamento, entraram para o reino de Deus apenas com uma de suas metades, contradizendo a palavra do Senhor que diz: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Lucas 10.27).
Certa vez Jesus disse que no céu ninguém se casa, nem se dará em casamento. “Porém, são todos como os anjos nos céus” (Marcos 12.25). Porque o casamente, disse Jesus, é uma necessidade [um negócio jurídico] meramente terrena. Lá no céu ninguém vai precisar disso. Pelo viés da história ocidental, podemos avaliar que Jesus quis dizer que o casamento é apenas um negócio jurídico que envolve interesses patrimoniais e financeiros, firmado por um papel cartorial no direito romano, chamado “certidão de casamento”. É um “contrato social” que incendeia nos casais ameaças tipo: “faça-me feliz, satisfaça o meu ego, senão vamos ter muita dor de cabeça nos tribunais”. Mesmo assim, idolatramos o casamento e a família no plano “A”, empurrando o reino de Deus para o plano “B”.
A verdade é que temos um medo fustigante e intransigente de perder as paixões da nossa zona de conforto e, então, justificamos este medo criando pensamentos e argumentações carregados de religiosidade e desprovidos de vida em Deus. Receamos assumir o discipulado de Jesus deixando para trás a cruz das paixões da vida transitória. Então levamo-las conosco. Aí preferimos seguir o rumo das nossas paixões efêmeras, fazer as coisas erradas e depois perseguir a razão para justificar os erros cometidos. Nunca usamos a inteligência espiritual para fazer a escolha correta, mas usamos a inteligência comum, carregada de espertices, para elaborar desculpas brilhantes e assim aliviar a dor de ter errado.
Como disse nosso amigo indiano, morrer não dói. O que dói é enfrentar um casamento com uma mulher turbulenta com a mente carregada de fantasias da vida efêmera que, quando não realizadas, se transformam em perseguição, intrigas e infelicidade no lar. O que dói é ter que se divorciar dela e, depois, enfrentar as consequências dolorosas de uma infeliz separação conjugal. O que dói é viver ao lado de um marido beberrão, rabugento, estúpido, violento e depois, toda partida de golpes emocionais, ser obrigada a fazer sexo com ele na cama sem uma gota de prazer.
Morrer não dói. O que dói é viver num país de economia desajustada por causa da cultura da corrupção imperando drasticamente sobre a vida de milhões de pessoas inocentes e afetando desgraçadamente todas as políticas públicas da nação. O que dói é ter que sobreviver em meio às injustiças da justiça dos homens que furta o direito de quem tem para dar a quem é desonesto, malevolente e iníquo. Morrer não dói. O que dói é ser obrigado a encarar as injustiças sociais ocasionadas por maus gestores de uma sociedade que se acostumou a gestar infernos políticos sobre a vida de uma população carente de justiça humanitária.
Morrer não dói. O que dói é viver ao lado de filhos ingratos e desobedientes e ainda ter de pagar caro para tirá-los da cadeia. O que dói é ter de chorar nos seus funerais porque tiveram suas vidas ceifadas na prática do crime e da arrogância na liberalidade traiçoeira de uma vida tola e libertina.
Morrer não dói. O que dói é a consciência de ter votado em políticos avarentos, desonestos e inúteis e, depois, sofrer no mar de políticas burocráticas, privações econômico-sociais e dirigir em ruas esburacadas, quebradas, depois de pagar um IPVA caro e, ainda, tendo que pagar mais caro ainda para consertar o carro todo quebrado.

Viver dói... Dói porque as pessoas podem fazer tudo para viver em paz e harmonia, fazendo as coisas certas, mas optam por acionar os mecanismos da tormenta e viver desgraçadamente. Viver dói porque as pessoas preferem se perseguirem umas às outras e, assim, gerarem ódio e vingança que resultam em tragédias, angústia, sofrimento e morte. "Morrer não dói. O que dói é viver enfurnado nesta vida de dor existencial, isolado de outra vida mais harmoniosa e melhor", disse o velho indiano.

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