Aliás, aprendemos na Bíblia que a poética espiritual construída por Davi, expressivamente registrada no livro dos Salmos, é caracterizada por uma profunda sinceridade, expressando uma gama completa de emoções humanas diante de Deus, desde o louvor exaltado até o lamento profundo. Como pastor, guerreiro e rei, Davi utilizou a harpa e a poesia para orar e adorar, compondo pelo menos 74 dos salmos, que funcionam como um "diário da alma". Ele enclinava o coração e os ouvidos para o Senhor, e, assim, ouvia poemas do céu. Escrevia-os na alma e os transformava em peças de louvor e adoração.
Vemos no livro de Salmos algumas características principais da poesia de Davi. Uma delas é a sinceridade no sofrimento. Seus poemas frequentemente surgiram em momentos de perseguição (como nas cavernas) e desertos, transformando a dor e o medo em orações honestas e consolo. Era uma poética que tinha conexão com a natureza. Davi frequentemente utiliza elementos da criação para exaltar a majestade de Deus, mostrando uma sensibilidade "ecológica" e espiritual ao mesmo tempo, como visto no Salmo 8.
Assim, Davi tinha dependência total de Deus. Ele expressa sua sede espiritual diante do Senhor (Salmo 63) e derrama sua confiança na proteção divina, mesmo em tempos difíceis. Matinha permanentemente arrependimento e quebrantamento de coração e alma. A poética de Davi não esconde suas falhas. Pelo contrário, destaca seu coração quebrantado e a busca por perdão. Celebrava ação de graças e louvor. O Salmo 18 é um exemplo de hino de gratidão, em que Davi celebra o livramento divino e a sua força em Deus.
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Eram temas espirituais centrais. Davi tinha o Senhor como Pastor e Provedor (Salmo 23). Reflete sua vivência inicial como pastor e a confiança na provisão divina. E, então, revela o contraste entre o ímpio e o justo (Salmo 37). A poesia espiritual de Davi era, enfim, uma meditação poética sobre a justiça final de Deus e a segurança dos que confiam nEle. Nos mostra uma busca pela presença divina (Salmo 63). A saudade do santuário e o desejo ardente pela presença de Deus na adversidade. A poética de Davi transcende o tempo, oferecendo refúgio, esperança e coragem, servindo como modelo de adoração e diálogo sincero com o Sagrado.
O diálogo com Deus, para Davi, reflete uma prática espiritual de oração em que, muitas vezes, o silêncio é significativo e descritivamente aprendente sobre lutas e busca por consolo divino. Quando buscamos conhecimento sobre como estabelecer um diálogo pessoal com o divino, Davi mostra caminhos comuns como oração espontânea, em que se pode falar com Deus como se fala com um amigo, expondo sentimentos, medos e gratidão sem fórmulas prontas.
A meditação secreta clarifica que o diálogo ocorre no silêncio, em que se aprende a "ouvir" através da intuição ou da paz interior. Manter leituras contemplativas significa utilizar textos sagrados como base para uma conversa, refletindo sobre como aquelas palavras se aplicam à nossa vida hoje e sempre. A poesia bíblica é uma escrita terapêutica, em que escrever cartas para Deus é uma técnica usada por Davi e outros servos do Senhor para organizar pensamentos e externalizar emoções profundas. E, então, crescemos espiritualmente.
No plano humano, por outro lado, temos na história da literatura uma referência clássica ao Soneto XIII (também conhecido como "Ouvir Estrelas") da obra Via Láctea, de Olavo Bilac. Uma demonstração de que a espiritualidade pode vir em forma de arte.
O poema é um dos marcos do Parnasianismo brasileiro e aborda a sensibilidade necessária para "ouvir" e entender o universo através do amor. O amor é o mais significativo pilar da busca pela espiritualidade. O poema de Bilac diz:
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, / Que, para ouvi-las, muita vez desperto / E abro as janelas, pálido de espanto...
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O significado disto passa pelo "eu lírico" defendendo que a capacidade de "ouvir estrelas" — ou seja, compreender a beleza e os mistérios do mundo, inclusive do mundo sensível à espiritualidade — não é loucura, mas um privilégio de quem ama. Davi sabia amar a Deus e tinha os ouvidos abertos para o Senhor. Ele vivia o tempo todo sob proteção divina. Logo, o Deus que inspirou a poética de Davi é o mesmo que inspirou a poética de Bilac. Deus não é um Deus exclusivo de um homem. Deus é o Deus intraplanetário, presente em cada parte do Universo. Ele é o Senhor das grandes e pequenas coisas. Inspira os homens e os chama para conhecê-lo na intimidade. Com Davi aprendemos a amar a Deus sobre todas as coisas, assim como, com Jesus, aprendemos o que é amar o próximo como a si mesmo.
Voltando ao exemplo da sensibilidade da espiritualidade humana, o soneto de Bilac termina com a célebre afirmação: "Direis agora: 'Tresloucado amigo! / Que conversas com elas? Que sentido / Tem o que dizem, quando estão contigo?' / E eu vos direi: 'Amai para entendê-las! / Pois só quem ama tem ouvido capaz / De ouvir e de entender estrelas'".
Dizem que a arte, inclusive a arte poética, é pura espiritualidade. Decerto. No contexto cultural, é comum encontrar esse poema de Bilac associado a músicas e interpretações de artistas como Belchior e em homenagens à poesia brasileira.
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O que aprendemos com isso no contexto da literatura bíblica? Davi nos ensina que relacionamento com Deus passa pela sensibilidade espiritual que pode vir em forma de poesia e que o coração humano é o laboratório onde o Senhor trabalha a construção ou a reconstrução do homem enquanto ser espiritual, social e relacional. Isso pode acontecer em forma de arte. Cantada ou escrita. Música, poesia, pintura ou romance. Cada dom tem a sua expressividade propriamente dita.
Davi nos ensina, então, que a sensibilidade espiritual é a capacidade de perceber, discernir e responder às realidades espirituais e à direção divina. Ouvir estrelas do céu (na busca pela espiritualidade). Isto nós aprendemos nos salmos construídos por ele. Envolve discernimento aguçado sobre ambientes e pessoas, sendo considerada um dom para compreender o mundo invisível. Logo, a sensibilidade espiritual pode ser cultivada através de oração, meditação e piedade, exigindo equilíbrio para não gerar confusão.
Assim, como vemos, os principais aspectos da sensibilidade espiritual são pontuáveis.
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Primeiramente, temos o discernimento. O discernimento é a alta capacidade de perceber o ambiente, sentindo o "peso espiritual" de lugares ou pessoas. Depois, temos conexão divina. Entendida como uma ferramenta divina, permitindo ouvir a voz do Espírito e agir conforme Seus propósitos. Então vivenciamos sinais e sintomas. E aí pode incluir intuição aguçada, sonhos vívidos ou percepção de odores, muitas vezes acompanhando o que é descrito como dons.
Dons são dádivas ou habilidades especiais concedidas gratuitamente pelo Espírito Santo aos cristãos, não por merecimento, mas para o serviço ou a laboridade divina na terra, visando a edificação da igreja e a glorificação de Deus. Os dons diferenciam-se de talentos naturais (genéticos) por serem capacitações espirituais sobrenaturais, como profecia, ensino, cura e sabedoria, fundamentadas no Novo Testamento. E aí entram a música e a poética como peças espirituais de alto valor sobrenatural. Se projetado com absoluta santificação e dedicação ao Senhor, o portador de dons se torna brasa viva nas mãos de Deus.
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Mas há riscos de sobrecarga. Indivíduos com alta sensibilidade espiritual podem sofrer de exaustão, estresse ou angústia ao absorver energias cósmicas negativas, exigindo práticas de proteção e autoconhecimento. Veja que há dois mundos: o mundo de energias cósmicas negativas, e o mundo de energias cósmicas positivas. O bem e o mal. O bem é o reino de Deus. O mal é o reino de Satanás.
Como desenvolver e preservar a operacionalidade dos dons (dicas práticas). Com pausas e relaxamento. Reservar momentos para oração, meditação ou silêncio para acalmar a mente e o corpo é necessário. Filtro de conteúdo e higienização mental. Reduzir o consumo de notícias e informações que geram ansiedade, toxidade e sobrecarga energética. Momentos de intimidade com Deus são indispensáveis. Viver momentos a sós com Ele, para uma conversa íntima e honesta entre Pai e filho, Criador e criatura.
É preciso registrar sonhos e intuições para identificar padrões de comportamentos espirituais. Definição de limites. Aprender a dizer "não" para proteger sua energia. Estudo e piedade. Ler textos sagrados, frequentar locais de adoração e manter práticas de fé como orações diárias. A falta de compreensão sobre esse dom pode torná-lo um fardo, mas, quando bem guiada, a sensibilidade espiritual proporciona crescimento, paz e maior conexão com o sagrado.
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A poesia de Davi, majoritariamente encontrada nos Salmos bíblicos, é marcada por intensa expressão emocional, confiança em Deus, confissão de pecados e louvor. Suas composições refletem sua vida como pastor e rei, abordando temas como refúgio no perigo, gratidão e a beleza da criação.
Podemos mencionar, aqui, alguns exemplos notáveis da poesia de Davi nos Salmos por ele escritos. Refúgio e oração (Salmo 142). "Clamo a ti, Senhor, e digo: Tu és o meu refúgio; pois estou muito abatido; pois são mais fortes do que eu."
Confiança e guia (Salmo 32.8). "O Senhor Deus me disse: 'Eu lhe ensinarei o caminho por onde você deve ir; eu vou guiá-lo e orientá-lo.'". Sobre a criação (Salmo 8), Davi contrasta a pequenez humana com a grandeza da criação de Deus. E move o coração de Deus para si.
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Davi tinha muita gratidão pelo seu Senhor (Salmo 145.1). "Eu te exaltarei, ó Deus, rei meu, e bendirei o teu nome pelos séculos dos séculos e para sempre."
Em relação às características da poesia de Davi, podemos apontar a linguagem de deserto. Ele utiliza metáforas do ambiente árido e pastoril. Usa também acrósticos, em que alguns salmos, como o 34, utilizam letras sucessivas do alfabeto hebraico para cada versículo. A intimidade expressa uma relação pessoal e direta com Deus, alternando entre sofrimento e exaltação. Davi, finalmente, tinha uma sensibilidade espiritual definitivamente afinada com Deus. Ele estava o tempo todo com seus ouvidos ligados ao céu, ouvindo e escrevendo as poéticas sopradas pelo seu Espírito. Deus, finalmente, fala com o homem da forma que Ele quer.
A intimidade com Deus, finalmente, é um relacionamento profundo, constante e pessoal com Ele, construído através de oração sincera, leitura da Palavra e obediência, transformando a vida espiritual e revelando o caráter divino. Exige entrega diária e busca no "lugar secreto", proporcionando paz, direção e fortalecimento, superando tudo o que é superficial. O Senhor requer de nós entrega absoluta e completa.
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Mas como podemos cultivar a intimidade com Deus? Aprendemos com Davi a oração no secreto. Dedicar tempo a sós com Deus, longe de distrações, para derramar a alma e ouvir Sua voz mansa e suave. Leitura da palavra, isto é, meditar nas Escrituras diariamente é o supremo segrego inicial, pois a Bíblia é o meio certo e seguro de conhecer a vontade e o caráter de Deus. Viver em constante meditação e entrega é o caminho que nos mantém na presença do Altíssimo. A intimidade não é esporádica. Ela exige um relacionamento constante e submissão à vontade do Senhor. Requer confissão e purificação inteiriça. Devemos, assim, limpar o coração de pecados confessando nossas fraquezas, o que permite maior aproximação com o sagrado, conforme Tiago (4.8). Devemos, ainda, viver em permanente adoração e louvor. Isto nos permite cultivar uma vida de adoração contínua que reconhece a presença de Deus acima de tudo.
Os benefícios da intimidade com Deus proporcinam em nós conhecimento profundo, em que podemos entender o coração de Deus e seus planos (Jeremias 29.11). Isto nos orienta para uma perfeita paz e pleno consolo. Também nos leva a encontrar refúgio e alívio nas dificuldades, em que é possível sentir o amor de Deus na profundidade da nossa alma.
Uma vida de intimidade com Deus nos proporciona poder e direção, nos levando a receber autoridade espiritual e orientação divina para tomarmos decisões inequívocas (Salmos 25.14). Finalmente, a iniciativa de aproximação é de Deus, mas cabe a nós ouvir e aceitar o convite do Criador para viver essa união diariamente.