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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ENTREGUISMO DE ALCÂNTARA

Governo Temer assume negociação da base Alcântara com os EUA

Para Serra, esta é uma das primeiras providências nas relações com o novo presidente americano, Donald Trump.

Matéria publicada em 
Serra confirmou que oferecerá aos americanos um acordo sobre a estratégica base de Alcântara (MA). / Reprodução
O Planalto resolveu escancarar o entreguismo. José Serra, Ministro das Relações Exteriores, confirmou que oferecerá aos americanos um acordo. Segundo ele, esta é uma das primeiras providências nas relações com o novo presidente Americano, Donald Trump. A administração de Michel Temer assumiu que já prepara a minuta do contrato a ser apresentado aos americanos. A ideia é oferecer a eles acesso a centro de lançamento —cobiçado por sua posição estratégica junto à Linha do Equador— para poder, em troca, usar os equipamentos fabricados pelos potenciais parceiros. Devido à ameaça à soberania e às poucas garantias à indústria nacional, o acordo havia sido enterrado pelo governo Lula ainda em seu primeiro mandato. 
As informações são de reportagem de Eliane Oliveira, Gabriela Valente e Roberto Maltchik em O Globo.
"- Vamos tomar a iniciativa de propor a reabertura de negociação em torno de vários acordos e tratados que não se concretizaram. Um deles se refere à base de Alcântara. O assunto foi muito debatido no passado e, agora, vamos tentar uma parceria — revelou Serra.
O uso dos modernos sistemas espaciais dos Estados Unidos, jamais obtidos pela indústria nacional, porém, não significará transferência tecnológica ao setor privado brasileiro. Pelo contrário: para que a negociação avance, o Brasil terá que aprovar uma lei que indique de forma técnica e pormenorizada a proteção que será dada a todo componente tecnológico manipulado em solo brasileiro. Se parte das exigências dos EUA forem alteradas pelos parlamentares do Brasil, e as mesmas forem consideradas insatisfatórias pelos congressistas americanos, não tem negócio."

ALCÂNTARA DEPOIS DE ARAKÉM

Alcântara depois de Arakém
O que a nova administração do município brasileiro mais cobiçado pelos EUA poderá estar fazendo para explorar o seu potencial de desenvolvimento perdido na história da economia local
Battista Soarez
Jornalista, escritor e consultor institucional. Especialista em Marketing de Mercado Globalizado (UCAM/RJ), o autor é coordenador do curso de pós-graduação em Políticas Públicas, do Instituto Daniel de La Touche, em São Luís-MA.

Alcântara faz parte da região metropolitana de São Luís.
Nos últimos anos, o município de Alcântara, região metropolitana de São Luís, capital do Maranhão, tem sofrido maus-tratos por parte de gestores descompromissados que pensam somente no seu próprio conforto econômico e dos seus aliados políticos. O prefeito anterior da cidade, Domingos Arakém, que deixou a prefeitura no final de 2016, cometeu atos administrativos fraudulentos, os quais colocaram a prefeitura num lastro de sucateamento das políticas públicas. Tanto é que o atual gestor municipal, Anderson Wilker, tem tido dificuldade em por as coisas em ordem, dado o nível de bagunça em que os órgãos municipais se encontravam.
Mas, vale dizer, Alcântara tem potencialidades evidentes que colocam o município em um posicionamento favorável em relação às leis da economia de mercado. Todavia, os gestores, míopes administrativamente, não conseguem visualizar essas potencialidades econômicas do município, o qual já foi um grande centro de economia rural, modelo para o Brasil e para o mundo.
Uma memória arquitetônica vigiada pelo IPHAN.
Se, a partir de agora, o novo governo municipal colocar em debate a participação de Alcântara no livre-comércio do Maranhão, do Brasil e do mundo, não há dúvida de que, em pouco tempo, a economia do município estará em alta. Isto porque Alcântara, em termos de estratégia geográfica, de produção e de distribuição, tem todas as condições de voltar a ser um dos maiores centros de economia, inclusive rural, do Maranhão e, consequentemente, uma das economias mais desenvolvidas e poderosas da América Latina.
É sintomático, no aspecto positivo, que se houver, e logo, um debate econômico no Maranhão colocando Alcântara como um dos principais centros econômicos do Estado, não somente o município terá ganhos surpreendentes, em termos de desenvolvimento, mas, também, o Maranhão será favorecido com isso e até outras regiões do Estado ganharão visibilidade.
As ruas da cidade são, ainda, dos séculos XVII e XIII.
Alcântara, no entanto, parou no tempo. O município já foi, como dito acima, um grande centro de produção agrícola, com potencial de exportação para todo o Brasil e para o mundo. Hoje, a contraponto, a cidade não passa de uma velharia de ruínas que não trazem nenhuma contribuição para o desenvolvimento e, principalmente com a política preservacionista do IPHAN, a população ficou condenada a ficar fora do desenvolvimento urbano de que toda civilização moderna tem direito.
É importante considerar que as economias desenvolvidas apresentam imensas vantagens estruturais em relação à economia brasileira. Segundo especialistas em desenvolvimento, essas vantagens não poderão ser superadas num horizonte visível. No campo macroeconômico, diversas circunstâncias relativas à chamada competitividade sistêmica — sistema tributário injusto, escassez de crédito, custos financeiros elevados, fraquezas dos mercados de capitais domésticos, deficiências de infraestrutura, etc. — colocam as empresas brasileiras em desvantagem na disputa por mercados internos e externos.
A igreja do Carmo preserva a história religiosa do lugar.
Isso, associado à corrupção [política, econômica, social, jurídica, etc.], afeta drasticamente os municípios. Em razão dessas assimetrias sistêmicas, a maioria das empresas brasileiras não pode enfrentar a concorrência das empresas dos países desenvolvidos, por exemplo. Em razão disso, esses países desenvolvidos se acham no direito [e têm facilidades] de explorar a riqueza do país, inclusive em regiões importantes dos estados do Pará e do Maranhão.
Em face desta problemática, há dificuldades fundamentais no plano microeconômico. As empresas dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos são muito superiores às brasileiras em termos de escala de produção, tecnologia, organização, acesso a crédito e capital, redes de comercialização, marcas e outros aspectos importantes. Mas isso é um problema de mentalidade dos governantes brasileiros, e não de falta de recursos.
As ruínas da igreja de São Matias.
Diante dessa ineficiência do governo brasileiro, os EUA têm interesses em Alcântara. Aliás, Alcântara é o único município brasileiro que, no atual momento de nossa história social, é interessante para os americanos, exatamente por causa das diversas potencialidades que ele tem, e não apenas pelo fato de ser uma área estratégica para lançamento de foguetes espaciais. E se o governo brasileiro não cuidar o mais cedo possível, em breve Alcântara estará sendo o portal de entrada dos EUA no Brasil, onde eles, os americanos, estarão impondo suas condições e seus interesses altamente cobiçosos.

Local onde fica o Centro de Lançamento de Alcântara.
No lume desse quadro de realidade, o atual prefeito de Alcântara, o jovem Anderson Wilker, tem demonstrado muita vontade política de colocar o município no portal do desenvolvimento socioeconômico do país e do mundo, o que não será difícil se ele e sua equipe técnica buscarem relacionamentos e oportunidades em nível de estrutura política, social e econômica, contemplando todos os setores da administração municipal. Uma espécie de inteligência administrativa, portanto, precisa funcionar continuamente em termos de reengenharia de projetos estruturantes que possam, por meio de parcerias com instituições financeiras nacionais e estrangeiras, estar gerando mecanismos de produção e de relações comerciais potencialmente produtivas e focadas no crescimento da economia do município de Alcântara.