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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Blog Leitura Livre | COLUNA LEITURA LIVRE | por Battista Soarez

COLUNA LEITURA LIVRE
Por Battista Soarez
(Jornalista, escritor, sociólogo, teólogo e professor)
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Governança política e governabilidade técnica
Entre direita e esquerda, qual governo é mais técnico e qual é mais político?


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O ENTENDIMENTO DE QUE governos de direita priorizam uma composição majoritariamente técnica é uma visão frequente no debate político, mas o tema divide opiniões entre analistas e cientistas políticos. Nesta edição, a Coluna Leitura Livre destaca uma análise de contexto opinativo do ponto de vista da ciência política.

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Diferentes perspectivas analisam essa questão sob os pontos de vista que se seguem. Há argumentos a favor. Defensores dessa perspectiva apontam que gestões de direita frequentemente buscam atrair perfis oriundos do setor privado, da academia ou de carreiras de Estado com sólida formação em áreas como economia e gestão pública. O objetivo central costuma ser a aplicação de critérios de eficiência, responsabilidade fiscal e metas de desempenho, reduzindo o peso de indicações puramente político-partidárias em ministérios e secretarias estratégicas.

Mas há, também, argumentos contrários. Críticos desse modelo enfatizam que a escolha de ministros e secretários em qualquer governo envolve, inevitavelmente, uma dimensão ideológica e de acomodação de forças políticas para garantir a governabilidade no Legislativo. Além disso, cientistas políticos frequentemente apontam que a própria definição de "técnico" pode mascarar escolhas políticas, uma vez que decisões econômicas ou sociais baseadas em métricas puramente técnicas também refletem uma determinada visão de mundo e de prioridades para o país.

Em termos práticos, analistas políticos tendem a concordar que a maioria dos governos, independentemente de estarem à direita ou à esquerda do espectro político, opera com uma composição mista. Eles buscam equilibrar quadros com forte especialização técnica em pastas como Economia ou Saúde, enquanto utilizam outras pastas para construir coalizões e garantir apoio político.

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Por conseguinte, podemos analisar exemplos específicos de ministérios em diferentes gestões e portanto debater como a ciência política define a diferença entre escolhas técnicas e políticas.

Para analisar como essa dinâmica funciona na prática, podemos dividir o tema em dois pontos principais. Primeiramente, tem-se a definição da ciência política sobre o assunto e exemplos práticos de como os governos equilibram essas forças. O conceito na Ciência Política é o técnico versus político.

Na teoria política, a separação entre o "técnico" (burocrata ou especialista) e o "político" é considerada complexa, pois ambos os papéis dependem um do outro. Aqui se tem a ilusão da neutralidade técnica. Alguns cientistas políticos apontam que nenhuma decisão de governo é 100% neutra. Escolher priorizar o corte de gastos (responsabilidade fiscal) ou o aumento de investimentos (desenvolvimento social) pode ser executado de forma técnica, mas a escolha da prioridade em si é uma decisão política e ideológica.

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Assim, o papel do "tecnoburocrata" é o termo usado para descrever especialistas que assumem cargos políticos. Eles trazem eficiência metodológica, mas precisam responder à agenda do governante eleito. Por outro lado, vislumbra-se a necessidade de negociação. Um ministro puramente técnico pode ter dificuldades no Congresso Nacional. Na democracia, aprovar leis exige negociação, articulação e concessões políticas, habilidades que parlamentares e líderes partidários dominam melhor que os técnicos.

Para tanto, exemplos práticos de composição mista podem ser apontados.
Historicamente, governos de diferentes espectros políticos no Brasil e no mundo tentam equilibrar essas duas forças para garantir eficiência e governabilidade.

Primeiro, apontam-se ministérios de perfil técnico (a busca por credibilidade). Geralmente, as pastas que exigem maior confiança do mercado financeiro, de órgãos internacionais ou da comunidade científica, recebem nomes de forte apelo técnico.

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Portanto se tem Economia / Fazenda. É comum ver economistas de carreira, ex-diretores de bancos ou acadêmicos renomados nessas pastas, tanto em governos de direita quanto de esquerda, para sinalizar estabilidade. Depois vêm saúde e ciência. Em momentos de crise (como pandemias), a pressão por ministros com formação médica ou científica sólida aumenta para validar as decisões do governo. Isto ocorreu no governo Bolsonaro.

Com relação ao Banco Central, o comando da instituição costuma ser blindado com perfis técnicos do setor financeiro para evitar interferências políticas na inflação e nos juros.

Agora, no que diz respeito aos ministérios de perfil político (a busca por governabilidade), pastas com grande orçamento ou forte capilaridade regional costumam ser usadas para acomodar partidos aliados, garantindo votos no Poder Legislativo.

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Na questão de Cidades, Integração Nacional e Transportes, gerenciam-se obras públicas visíveis em municípios e estados. Governantes frequentemente entregam essas pastas a políticos experientes para consolidar alianças regionais.

Na Articulação Política (Secretaria de Governo / Casa Civil), a pasta quase sempre é ocupada por políticos profissionais que entendem o funcionamento do Congresso e sabem negociar emendas e cargos.

Podemos analisar, enfim, como o critério técnico foi aplicado em governos brasileiros recentes ou entender como a estabilidade das carreiras de Estado (concursados) influencia a continuidade do governo independentemente dos ministros escolhidos.

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Para entender o impacto real da qualificação técnica na gestão pública, podemos analisar tanto o histórico recente de nomeações no topo do governo federal quanto o papel da burocracia estável, que funciona na base do Estado.

Vejamos, primeiramente, o critério técnico em governos brasileiros recentes. Nos últimos anos, diferentes gestões federais adotaram estratégias distintas para equilibrar a necessidade de apoio político no Congresso Nacional (presidencialismo de coalizão) com a demanda pública por eficiência técnica.

Governo Dilma Rousseff (PT - 2011 a 2016). Em seu primeiro mandato, a presidente buscou projetar uma imagem de "gerente". Áreas como a equipe econômica inicialmente mantiveram perfis técnicos tradicionais. Contudo, em seu segundo mandato, diante de uma forte crise política e econômica, o governo alternou estratégias. Nomeou Joaquim Levy (um economista de perfil ortodoxo e técnico) para a Fazenda para acalmar os mercados, enquanto abria espaço em ministérios de grande orçamento para partidos aliados na tentativa de barrar o processo de impeachment.

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Governo Michel Temer (MDB - 2016 a 2018). Ao assumir após o impeachment, Temer montou um ministério fortemente político para consolidar sua base no Congresso. No entanto, para obter credibilidade econômica, blindou a chamada "equipe econômica", colocando nomes de forte trânsito no mercado financeiro na Fazenda (Henrique Meirelles) e no Banco Central (Ilan Goldfajn), demonstrando como um governo essencialmente político utiliza a técnica em áreas estratégicas para gerar estabilidade.

Governo Jair Bolsonaro (PL - 2019 a 2022). O governo elegeu-se com a promessa de romper com o "toma lá, dá cá" partidário, anunciando a criação de "ministérios técnicos" divididos em blocos ou "superministérios" (como a Economia com Paulo Guedes e a Justiça com Sergio Moro), além de oficiais das Forças Armadas em posições de destaque. Com o tempo, a necessidade de aprovar reformas e barrar processos de impeachment no Congresso levou o governo a mudar a estratégia, entregando o comando da Casa Civil e de ministérios com forte capilaridade regional (como o Ministério da Cidadania) a lideranças de partidos do bloco conhecido como "Centrão".

Governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT - 2023 a 2026). Ao retornar ao poder, Lula estruturou o governo a partir de uma "frente ampla", distribuindo ministérios entre uma grande variedade de partidos (desde a esquerda até legendas de centro e centro-direita como União Brasil, MDB e PSD) para garantir governabilidade. Ao mesmo tempo, buscou acomodar o perfil técnico dividindo pastas. O Ministério da Economia foi fatiado, colocando um perfil político na Fazenda (Fernando Haddad), mas cercando-o de secretários e secretárias com perfil técnico e acadêmico, e alocando especialistas de carreira em pastas setoriais como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Marina Silva) e o Ministério da Saúde (Nísia Trindade, ex-presidente da Fiocruz).

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Analistas políticos apontam que todos esses governos demonstraram que, no sistema político brasileiro, o isolamento puramente técnico no primeiro escalão tende a ser temporário, pois a governabilidade sempre exige a distribuição de poder político. 

O papel das Carreiras de Estado (Burocracia Estável). Enquanto os ministros e secretários mudam conforme o governo da vez, a verdadeira continuidade da administração pública brasileira depende dos servidores públicos concursados, conhecidos na ciência política como a "burocracia de médio escalão" ou "carreiras de Estado".

A blindagem institucional. Carreiras como as de Gestores Públicos (EPPGG), Auditores da Receita Federal, Diplomatas (Itamaraty), Procuradores, Analistas do Banco Central e Técnicos do IPEA possuem estabilidade garantida por lei. Isso significa que, independentemente de o ministro ser um político indicado por um partido ou um técnico de fora, as decisões cotidianas de arrecadação, fiscalização, planejamento e execução precisam seguir ritos e leis estritas operadas por esses servidores.

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A memória do Estado. Quando há uma troca de governo ou de ministro, os novos ocupantes dos cargos políticos dependem do conhecimento acumulado por esses técnicos estáveis para entender as regras do orçamento, os contratos em vigor e as amarras jurídicas. Sem essa burocracia permanente, as políticas públicas sofreriam interrupções drásticas a cada mudança de espectro político.

O preenchimento de cargos de confiança. Mesmo os cargos chamados de "Livre Provimento" (antigos DAS, hoje transformados em funções com critérios mais rígidos pela reforma das gratificações) são frequentemente ocupados por servidores de carreira. Governos de diferentes orientações utilizam esses profissionais concursados para ocupar secretarias nacionais e diretorias porque eles já conhecem a máquina pública, reduzindo os erros de gestão.

Dessa forma, a ciência política demonstra que a eficiência de um governo não depende apenas de o ministro ser um "técnico" ou um "político", mas sim da capacidade de a liderança política dialogar e direcionar corretamente a burocracia qualificada que já existe permanentemente dentro do Estado.

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Finalmente, há ainda um debate com vantagens e desvantagens de o Banco Central ser independente da ala política do governo em que há dados sobre a proporção de servidores de carreira em cargos de chefia no Brasil.

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