terça-feira, 6 de abril de 2010

MINHA VIDA. MINHA HISTÓRIA. NASCE A VISÃO GLOBAL EDITORA

 Eu, minha tia Benedita (irmã de minha mãe) de 100 anos e meu sobrinho Nenenn
Depois de 17 anos de sonho, finalmente estamos conseguindo. Nasce a Visão Global Editora. Unidade de serviço da Visão Global de Desenvolvimento Humano Sustentável, a editora lançará obras de interesse geral no mercado nacional e primará pela qualidade de seus produtos de maneira decisiva. Era um sonho. E agora, somente agora, iniciei a realização desse sonho.

Primeiro, acho importante contar um pouco da minha história para o prezado leitor. Pois nunca fiz isso antes. Sempre fui muito reservado, modesto e silencioso no quesito "falar de mim mesmo". E isto por razões ora pessoais, ora no que tange ao que os outros poderiam pensar de mim.

Às vezes que ousei falar alguma coisa da minha vida para alguém, para um amigo ou até mesmo para uma namorada, as experiências não foram boas. Então, aprendi com o tempo que ser sigiloso não é ser pecador por omissão, mas sim um gesto de sabedoria que lhe trará muitos benefícios. Benefícios para a alma, para suas emoções, para seu espírito, para a mente e para o corpo. E principalmente para sua imagem. Mas agora, perante essa nova fase da minha vida, em que estou criando uma política de relacionamento com o público, é importante nos conhecermos. Você, cliente e leitor, precisa conhecer minha história. Como tudo aconteceu. Se você conhecer os caminhos pedragulhos por onde passei, pensará mil vezes antes de atirar pedras em mim. Este blog foi criado para nele eu contar minha história. E como aconteceu a Visão Global.

CAPÍTULO I

1967
Nasci numa pequena cidade do interior do Maranhão. Uma cidade quase inexpressiva, à época. Minha mãe, grávida de nove meses, teve dor de parto às 8:00hs da manhã. Mas só fui nascer às 10h:30m. Era uma sexta-feira, 23 de junho de 1967. Mesmo ano em que aconteceu a Guerra dos Seis Dias, em Israel. O Brasil vivia a ditadura militar. Mirinzal era, ainda, uma cidade pouco desenvolvida. Meu pai criava gado, plantava roça e era dono de engenho - uma herança familiar antiga. Meus avós paternos eram portugueses e africanos. De minha mãe, venho de uma mistura espanhola com indígenas.

1968
Corre o ano de 1968. Papai produzia cachaça - daquela que ficava azul no copo de vidro transparente - e negociava o produto com outras mercadorias. Era um viajante nato. Tinha muitas paixões. Uma delas eram as mulheres. Mas também gostava de caçar, pescar e, às horas vagas, passeava de cavalos bem tratados e galopantes. "Era chique para a época", dizia minha mãe, que falerceu sábado, 28 de novembro de 2009, um dia depois que eu redigi este artigo. Meu pai morreu em 2002, numa crise gripal por conta de uma terrível fraqueza causada por diabetes e derrames. Mais pela diabetes, já que estava recuperado do derrame. Em 1968, antes de completar um ano de idade, eu, segundo mamãe, comecei andar cedo. Então, fugi de casa por um pequeno descuido dos mais velhos. Todos ficaram me procurando desde as 9:00h da manhã. Quando já eram 12:00h, minha mãe, já desesperada, olhou para a rua e de repente olhou um senhor que vinha montado num cavalo com uma criança no cabeçote da cela. O moço vinha procurando de casa em casa de quem seria aquela criança. Minha mãe ficou extremamente agradecida. Pois já tinha chorado muito.
 
1969
Meu pai resolveu deixar Mirinzal e mudar, com a família, para um lugar chamado São Francisco dos Campos, onde ficava a fazenda da minha irmã mais velha, Netinha. Era um lago muito bonito. Talvez o maior da América Latina, ainda não descoberto pelo IBAMA e pelos predadores. Muitos pássaros, peixes, caças. Eu acordava de manhã, às seis horas, ouvindo os cantos de uma diversidade enorme de pássaros. Bentivis. Garças. Carões. Pucaçús. Papagaios. Curicas. E muitos, muitos outros. Todas as manhãs, o vento soprava fustigante e propagava um frio de arrepiar os pelos. O gado da fazenda amanhecia mugindo e, então, todos acordavam às 6:00hs. O meu cunhado, Alexandre, escolhia as vacas para tirar o leite. Era um café da manhã delicioso.
 
1970
Mudamos para um pequeno lugarejo denominado Chapadinha. Lá vivemos meu pai, minha mãe, eu e minha irmã Conceição. Minha mãe engravidou e teve meu irmão no dia 10 de novembro de 1970. Papai, todas as vezes que minha mãe estava grávida, era acomedido de uma inflamação dentária incrível. Sei lá o que era. Talvez um fenômeno que só a natureza pode explicar.

1971
Um dia meu pai, ao chegar de uma viagem de três meses, celou o cavalo, me colocou no lombo do animal e foi embora de casa. Andamos o dia inteiro até chegarmos em uma casa que, para mim, era muito desconfortável: sem minha mãe, sem minha irmã Conceição, sem meu irmão caçula. Doía muito. Eu nada entendia. Pois tinha apenas quatro aninhos de idade. Corria o ano de 1971, ano de muita dó emocional para minha vida infantil.

1972
Separado de minha mãe e dos outros filhos, meu pai me levou para morar com minha avó, por parte dele, Firmina Bandeira. Ela passava o dia inteiro fazendo rede de fio de algodão e de palha de tucum. A saudade de minha mãe me corroia por dentro, apesar de ter respondido a meu pai que queria morar com ele. Não era verdade. Nem sei por que disse aquilo. Talvez por medo. Era isto que eu sentia: medo. Muito medo. Não sabia explicar de que, mas sentia medo. Eu queria ficar mesmo era com minha mãe.

Poucos meses depois, ainda emn 1972, meu pai foi morar com uma mulher bem mais nova que ele. Aí fui muito maltratado. Aos seis anos de idade, pilava arroz com uma mão-de-pilão muito pesada. Ao executar a ação, aquele objeto resvalava de um lado para outro. Eu sentia cansaço e vontade de pedir para parar aquela atividade torturante. Mas tinha que fazer aquilo. Senão apanhava.
Meu pai criava muitas cabras e ovelhas. Todos os dias de manhã, eu tirava o leite das cabras com crias e preparava o café da manhã. Depois passava o dia inteiro vaquejando aqueles animais. Andava pelas campinas verdejantes organizando os rebanhos. Isto, para mim, era uma fuga da saudade da minha mãe e também dos maus tratos por parte daquela mulher.

1973
Um dia, entretanto, uma vizinha chamou meu pai em particular. Contou tudo o que via a ele.

- Sr. Felinto, não é da minha conta, mas quero lhe dar um conselho. Entregue essa criança para a mãe dele. Boi não cria bezerro. Quem cria bezerro é vaca.

- E por que, dona Maricota? - perguntou papai.

- Sua mulher o maltrata muito - ela respondeu.

- Não me diga uma coisa dessas.

- É verdade. Eu vejo tudo.

- Tá certo. Muito obrigado.

Meu pai saiu triste, pensativo. Ao chegar em casa, disse-me:

- Meu filho, te arruma. Nós vamos para a roça.

Então, caminhei a pé com meu pai cerca de 60km. Foi uma viagem cançativa. Durou o dia inteiro. Ao chegar ao local, na roça, o sol avermelhado acabava de esconder seus últimos raios. O cansaço, então, tomou conta de mim. Ali teve início mais um peçado da minha história.

CAPÍTULO II

Ainda 1973
Dona Cândida era uma pessoa formidável. Casada, 50 anos. Não tinha filhos. Assim que chegamos à roça, meu pai entregou-me a ela.

- Dona Cândida, este é meu filho. O que a senhora fizer por ele, estará fazendo por mim - disse papai.

- Pois não, seu Felinto. Cuidarei dele como se fosse meu próprio filho.

E assim aconteceu. Dona Cândida passou a lavar minha roupa, dar comida para mim na hora exata, me contar historinhas para criança. Amenizou, pelo menos por um pouco, a saudade, a dolorosa saudade da minha mãe. A escola ficou para trás. Teria que ficar um ano sem estudar.

Papai passava o dia inteiro na roça. Vinha em casa ao meio dia e ao final da tarde para dormir.

Quando a roça ficou pronta, podia, todos os dias, acordar de manhã cedo - o sol mal mostrava sua primeira claridade - e sentir o cheiro da terra, do arrozal, do milharal ainda esverdeado, dos pés de algodão. Podia ouvir o vento sibilar nas árvores frondosas, nas palmeiras do coco babaçú.

A casa onde morávamos era um rancho coberto de palha. Não fazia calor, apesar do sol. No inverno, mesmo com a chuva forte, não respingava e, à noite, quando todos dormíamos em redes de fio de algodão colhidos da própria roça, dava uma sensação muito agradável. Naturalmente, a comida era muito diversificada: caça, galinha caipira, peixe de igarapé. Era uma vida muito boa. Podia-se dizer que éramos felizes. Para mim, com apenas 6 anos de idade, a única falta de felicidade era a ausência de minha mãe. A época da colheita chegou e meu pai colheu alguns paneiros de arroz, milho e feijão. E então voltamos para o povoado denominado Pirapema.

No dia da partida, dona Cândida chorou muito. Me despedi dela e partimos. No caminho, meu pai passou por um lago e jogou a tarrafa de pescar. Apanhou uma perapema (na água salgada, esse mesmo peixe é chamado de camurupim) e outros peixes. Anoiteceu. Fazia muito frio por causa da água dava debaixo do meu queixo. Eu era ainda muito pequeno. Ficou tarde da noite e, mesmo assim, tive caminhar com meu pai até o lugarejo Pirapema onde morávamos. Chegamos em casa já era quase meia noite. Extremamente cansado, fui direto para a rede e dormi muito.

Ao acordar de manhã, tinha manchas de sangue na minha perna e atrás da orelha. À noite, durante o sono, morcego havia me chupado em vários lugares.

1974.
 Fomos morar na casa da minha madrinha Maria Soares, irmã caçula do meu pai.

- Comadre Maria! - disse papai.
- Diga, meu compadre - respondeu minha madrinha.

- A Ana anda maltratando meu filho. E eu não posso leva-lo para a roça porque ele tem que esdutar. Quero que meu filho seja alguém na vida. A vizinha, dona Maricota, me contou que a Ana bota meu filho para pilar arroz com uma mão de pilão muito pesada. Ele só tem 6 anos. Fez agora, recente. Ano passado eu o levei para a roça, mas lá não tem professor.

- E o que o meu compadre quer que eu faça? - perguntou minha madrina.

- Que a minha compadre fique com ele aqui até eu organizar minha vida.

- Pode deixar, meu compadre. Pelo menos é uma companhia para o Valbinho - prontificou-se ela, referindo a um sobrinho seu que criava.

E assim passei a morar na casa de Maria Soares a partir daquele dia. Dormia numa redinha de algodão, feita pela minha vó Firmina, desde quando meus pais se separaram. Já estava surrada. Mas servia. Ali a gente comia muito pato, galinha caipira, peixe - pois a casa de minha madinha, ainda hoje, fica cercada de lagos e peixes, muitos peixes - e caça. Inácio, seu marido, gostava de caçar e pescar.

Nos primeiros dias, era agradável. Minha madrinha me tratava bem. Mas depois de alguns dias os olhares e tratamentos já não eram mais os mesmos. No mês de junho, eu complei 7 anos de idade. Vivia pelos matos fazendo arapucas. Sempre que fazia algo errado, apanhava como cachorro. Longe de minha mãe, todo mundo achava-se no direito de me bater, gritar comigo e me tratar com humilhações.

Passei a estudar numa escola no povoado chamado Bandeira, onde antes meus bisavós parternos, por parte da minha avó Firmina Bandeira, tinham terras e muito gado. Com o tempo, e com a morte dos meus bisavós, a família foi perdendo tudo. Agora era povoado. Apenas o nome do lugar levava o nome da minha família.

No caminho da escola era muito maltratado pelos garotos maiores que também estudavam na escola. Eles batiam. Cuspiam em mim. Xingavam minha mãe. Enfim, ofendiam-me como queriam.

1975
Meu pai me levou de volta para morar com ele na mesma casa onde morava  com a mulher dele, a Ana. Ela deminuíra um pouco os maus tratos, mas pouca coisa mudou. Certa ocasião, o dia amanheceu ensolarado. Meu pai me chamou.

- Dotinho!

- Senhor, pai.

- Meu filho, hoje o dia tá bom para pegar peixe. Vamos pescar.

Meu coração saltou de alegria. Sabia que o lago onde íamos pescar ficava na região onde minha irmã, Netinha, tinha uma fazendo.

- Vamos, pai - disse eu, cuidando logo de me arrumar.

Meu pai pegou a tarrafa, colocou-a dentro de um cofo e saimos. Fomos até à beira do lago. Pegamos uma canoa e atravessamos o lago São Francismo, em direção à casa de minha irmã.

Naquele dia o vento estava forte e agitava as águas, que fazia a canoa balançar. De repente, vi meu pai rezando ou fazendo uma oração para que as águas se acalmassem. E assim ocorreu durante toda a travessia. Chegamos bem do outro lado. Meu pai encostou a canoa à beira da terra seca. Era um areial fabuloso. Muitas árvores.
Levantei os olhos e vi, lá em cima do areial, a minha mãe. Sair correndo em disparada. Tropecei na volumosa areia e caí. Levantei e continuei correndo, mas novamente caí. E assim continuei caindo e levantando. Minha mãe veio ao meu encontri e nos abraçamos muito. Minha mãe chorou muito ao me ver.

Já era tarde, quase meio dia. Minha mãe tratou de colocar o almoço à mesa. E então almoçamos.

- Mãe, eu quero ficar com a senhora - disse eu.

Meu pai me olhou e disse:

- Filho, você não trouxe roupa - argumentou meu pai.

- Não precisa, pai. A mamãe compra roupa pra mim - disse eu.

- É, Felinto - disse mamãe - deixa ele ficar comigo. Depois ele vai.

- Rosa - ponderou papai - eu quero botar meu filho para Curupu ou Mirinzal, para que ele estude e aprenda uma profissão.

- É, mas ele não quer ir contigo. Deixa ele comigo.

E assim fiquei com a minha mãe. Passamos vários dias conversando. Contei todo o sofrimento que havia passado. Mas contei também que a dona Cândida me tratou muito bem.

( Não parou por aqui. Aguarde, Acompanhe. )

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